A Associação Brasileira dos Organizadores de Corrida de Rua (ABRACEO) encaminhou um ofício ao vereador Randerson Vieira Leal, da Câmara Municipal, solicitando a retirada ou reformulação do projeto de lei que prevê a obrigatoriedade de apresentação de atestado médico para participação em corridas de rua em Salvador.
No documento, a entidade apresenta um parecer técnico com considerações sobre a proposta e destaca possíveis consequências negativas da medida para a prática esportiva na capital baiana.
Segundo o presidente da ABRACEO, Guilherme Celso, embora a proposta tenha o objetivo de ampliar a segurança dos participantes, a exigência obrigatória de atestados médicos pode gerar o efeito contrário ao esperado.
“Hoje, o que mais mata no Brasil e no mundo não são as provas esportivas, mas sim o sedentarismo e as doenças crônicas decorrentes da inatividade física, como obesidade, hipertensão e diabetes. Impor mais uma barreira para a prática da corrida, atividade simples e democrática, contribui para afastar a população do esporte”, destacou o dirigente em nota.
Entidade cita estudos e recomendações médicas
De acordo com a ABRACEO, estudos da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) apontam que a atividade física regular é um dos principais fatores de prevenção da mortalidade cardiovascular. Para a associação, tornar o atestado obrigatório pode ampliar desigualdades de acesso ao esporte, especialmente em um país com o sistema público de saúde sobrecarregado.
A entidade lembra que, nos últimos anos, diversas cidades e estados revogaram leis que exigiam exames médicos para frequentar academias. Em muitos casos, a obrigatoriedade foi substituída pelo PAR-Q, questionário internacional que orienta o praticante sobre a necessidade de procurar avaliação médica antes de iniciar atividades físicas.
Logística em provas também preocupa
Outro ponto destacado pela ABRACEO é a dificuldade logística de aplicar a medida em eventos de corrida de rua. Diferentemente das academias, que recebem poucos novos alunos diariamente, as provas podem reunir milhares de participantes em um único fim de semana.
Segundo a entidade, uma corrida pode ter entre 2 mil e 30 mil corredores, o que tornaria inviável a verificação e controle de atestados médicos por parte dos organizadores.
A associação reforça que os eventos já contam com estruturas de segurança obrigatórias, incluindo equipes médicas, ambulâncias, desfibriladores e protocolos de emergência. “O que realmente salva vidas em provas esportivas são ações estruturais, como planejamento de percurso, hidratação, atendimento médico e comunicação rápida em caso de emergência”, afirma o documento.
Acesso à saúde é outro ponto levantado
No ofício enviado ao vereador, a ABRACEO também chama atenção para o acesso limitado ao sistema público de saúde. Em muitos estados, o tempo médio para conseguir uma consulta com cardiologista pelo SUS pode ultrapassar três meses.
Para a entidade, exigir exames médicos para participação em corridas poderia excluir justamente a parcela mais vulnerável da população, transformando a corrida de rua em uma atividade restrita a quem tem maior acesso a serviços de saúde.
A associação também lembra que a morte súbita durante a prática esportiva é considerada um evento raro. Estudos internacionais indicam que a incidência entre atletas jovens é de cerca de um caso a cada 200 mil por ano.
Pedido de diálogo
No documento, a ABRACEO afirma respeitar a iniciativa do parlamentar, mas defende que o projeto seja retirado de tramitação ou reformulado com base em critérios técnicos e científicos.
A entidade também colocou-se à disposição para participar de debates e audiências sobre o tema, com a participação de especialistas da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte e do conselho médico regional.
“Temos convicção de que todos desejam que o esporte seja seguro, acessível e promotor de saúde. Para isso, é fundamental que as políticas públicas incentivem a prática da atividade física, e não criem barreiras que afastem a população do esporte”, concluiu o presidente da associação, Guilherme Celso.

Corre Bahia